Defendendo o papel das mulheres na economia verde

Ao longo da última década, a BVRio se empenhou em desenvolver e promover mecanismos de mercado que contribuíssem para a inclusão social, um dos valores fundamentais do nosso trabalho. Acreditamos que a economia verde deve ser inclusiva, por isso apoiamos os grupos sociais mais vulneráveis dos setores em que trabalhamos.

Empoderando mulheres no setor de gestão de resíduos

Resíduos são subprodutos das atividades humanas diárias. Estima-se que, no cenário vigente de produção de bens de consumo, a geração de resíduos sólidos urbanos aumentará em todo o mundo, passando de 2 bilhões de toneladas/ano em 2016 para 3,4 bilhões de toneladas em 2050, sendo que a maior parte desse aumento será observada em países de baixa renda, onde a geração deve triplicar (Fonte).

Desde o início de sua fundação, a BVRio tem trabalhado para fortalecer o setor informal de resíduos. Seus fundadores participaram de diversas discussões setoriais e contribuíram para a criação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PRNS) em 2010. Em 2013, a BVRio foi pioneira ao desenvolver o Sistema de Créditos de Logística Reversa, um modelo de economia circular socioambiental inovador. Um dos objetivos da BVRio foi melhorar as condições de trabalho dos catadores de materiais recicláveis da economia informal, em colaboração com o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis.

Mais de 800 mil catadores de materiais recicláveis trabalham nas ruas, nos lixões e nos aterros sanitários no Brasil. Um terço dessa força de trabalho é feminina, cerca de 84 mil mulheres (Fonte – Catadores de recicláveis no Brasil: Um Perfil Estatístico | WIEGO). A remuneração dos catadores informais se baseava apenas na venda dos materiais recicláveis, não existia até então um sistema de remuneração pelo trabalho ambiental de coleta e triagem dos resíduos. Por serem atores fundamentais na cadeia de gestão de resíduos, eles devem, segundo a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), ser incluídos na solução para os recicláveis. O sistema de créditos criado pela BVRio passou a oferecer uma importante fonte adicional de renda aos catadores e agregou valor às suas atividades, realizando um impacto social positivo.

Em 2020, a BVRio inaugurou a Plataforma de Ação Circular (Circular Action Hub), que conecta catadores de cooperativas, ou integrantes de iniciativas de mais de 40 países nos cinco continentes a empresas que buscam contratar serviços de coleta, triagem e reciclagem de resíduos. Por meio da Plataforma, tivemos a oportunidade de apoiar mulheres diretamente, sendo muitas delas líderes de cooperativas e iniciativas de reciclagem no Brasil.

Conversamos com essas mulheres sobre os desafios que enfrentam, suas aspirações e esperanças para o futuro.

“Cooperativa é um espaço para promover a sororidade”

Iara Meiri de Melo Moura Silva, 40 anos, é líder da Cooperativa Beija Flor, no Rio de Janeiro. Mãe de dois filhos, começou a trabalhar no mercado de reciclagem há mais de 20 anos com sua mãe, que veio do Nordeste para o Rio de Janeiro aos 17 anos de idade. Por trás do amor pela profissão, a história da Iara é de força e inspiração para a família que trabalha unida, passando o ofício para outras gerações. Leia a história de Iara.

 

“A reciclagem foi uma oportunidade de trabalho no bairro de Jardim Gramacho, onde quase 40 mil pessoas dependiam do lixo para viver. Gerações inteiras viveram do lixão por mais de 30 anos. Mais de 10 mil toneladas eram despejadas todos os dias no maior lixão da América Latina”. Clarisse Aramian, co-fundadora da Cooper Ecológica. Leia o depoimento de Clarisse.

 

 

Ouvimos também a história de Glória de Souza dos Santos, 45 anos, fundadora da cooperativa ACERJ, em 2019. Nascida em uma família tradicional de catadores de lixo no Rio de Janeiro, Glória trabalha há mais de três décadas no mercado de reciclagem. Foi criada em Laureano, bairro do Jardim Gramacho, o maior “centro de reciclagem do Estado do Rio de Janeiro”, onde junto com sua mãe e irmãos aprendeu a complexa tarefa de separar dezenas de materiais que chegavam ao “aterro controlado” no município de Duque de Caxias. Hoje, Glória é uma incrível e inspiradora líder na comunidade onde vive.. Leia mais sobre o trabalho da Glória.

 

O papel da mulher e o valor da floresta em pé

A participação da mulher na silvicultura é crucial para o uso sustentável da terra e o manejo florestal. Em todo o planeta, cerca de um bilhão de mulheres dependem das florestas para seu sustento, ajudando a construir conhecimento especializado para o manejo sustentável das florestas (FAO, 2022).

As iniciativas da BVRio relacionadas à bioeconomia e à redução do desmatamento e fortalecimento da restauração florestal, como o manejo comunitário sustentável, promovem a inclusão social também das das mulheres no trabalho para valorizar a floresta em pé.

“É preciso agir hoje para que um mundo mais feminino aconteça, com nossos espaços de fala, de inquietação e de quietude garantidos. Um mundo mais sustentável passa por mais liberdade de decisão feminina.” Roberta del Giudice – Secretária Executiva do Observatório do Código Florestal (OCF), organização parceira da BVRio.

A Iniciativa Design & Madeira Sustentável levou treze designers de madeira renomados ao coração da Amazônia para capacitar artesãos da Movelaria Anambé, localizada na Floresta Nacional dos Tapajós, no Pará, para levantar o perfil de rejeitos (toretes, galhos) da exploração madeireira. Entre esses designers, cinco são mulheres, cujo treinamento gerou impactos além do ensino técnico, empoderando as mulheres dessas comunidades florestais a incluírem suas vozes e talentos nos empreendimentos.

“Esta nova experiência mudou tudo na minha vida, porque antes eu não tinha uma renda familiar do jeito que tenho agora. Portanto, praticamente tudo mudou, inclusive minha rotina. Para mim é muito gratificante, venho trabalhar com alegria, com entusiasmo, é isso que eu gosto de fazer”. Valdirene Cardoso dos Santos, assistente na Movelaria Anambé, em Belterra, Pará, participou de um dos projetos de treinamento da Iniciativa Design & Madeira sustentável da BVRio, ministrado pela Designer Alessandra Delgado. Assista no nosso canal do Youtube.

“Ontem cheguei nesse lugar e de cara já fiquei emocionada. É difícil descrever a emoção que a gente tem de estar aqui… é se sentir pequeno dentro dessa grandiosidade toda, um lugar que tem uma energia absurda. Ainda bem que existe uma iniciativa como essa. Estou muito feliz de fazer parte desse projeto e estar aqui com a comunidade local. A gente vê o envolvimento que eles têm com essa riqueza, em querer fazer diferença dentro desse contexto e dessa riqueza toda”. Alessandra Delgado, designer da iniciativa Design & Madeira Sustentável.

Artesãs impulsionando a bioeconomia

A BVRio apoiou projetos que fortaleceram a bioeconomia dos nove estados da Amazônia Legal, e que resultaram na promoção do artesanato e na comercialização de produtos de empreendedores locais.

Criada em 2019, a iniciativa AmazoniAtiva foi projetada como parte da estratégia de governança climática para o estado de Rondônia e cresceu para se tornar um hub digital de soluções em comercialização e gestão da bioeconomia. A plataforma reúne hoje cerca de 70 parceiros e beneficiou mais de seis mil pessoas nos nove estados que compõem a Amazônia, ajudando a potencializar esses negócios de comunidades tradicionais que tiram seu sustento dessa atividade.

Conversamos com duas artesãs parceiras da AmazoniAtiva sobre o papel da mulher no empreendedorismo socioambiental:

“Empreender é ressignificar o verdadeiro potencial latente em cada uma de nós. Acreditar é sempre o primeiro passo para a materialização de nossos objetivos. Nós mulheres somos capazes de fazer a diferença. Que possamos ser agentes de transformação. Nós mulheres da Saboaria Rondônia atuamos em linhas de frente, em uma comunidade rural onde mobilizamos outras mulheres para validar a habilidade de cada uma traz consigo e possa assim numa sincronia deixar registrado aquilo que temos para melhorar o nosso mundo. Mulheres, todas vocês são capazes. Acreditem, busquem materializar os seus sonhos. Sempre podemos ser como aquele beija flor do incêndio na floresta… por menor a ‘gotícula de água que lançarmos’, estaremos contribuindo com certeza em fazer a diferença” Mareilde Freire de Almeida, sócia-fundadora da Saboaria Rondônia.

“Penso que o maior desafio seja evitar polarizar, dividir a sociedade entre homens e mulheres. Desejo que todos valorizem a família e a educação. Na minha visão, o importante é fortalecer o ser humano.” Zezé Freitas, empreendedora e farmacêutica na Ekilibre Amazônia..